Madame Bovary by Gustave Flaubert (2)

Madame Bovary by Gustave Flaubert (2)

Author:Gustave Flaubert (2)
Format: epub
Published: 2014-04-01T04:00:00+00:00


XII

Recomeçaram a amar-se. Muitas vezes, inclusive, Emma passou a escrever-lhe, repentinamente, no meio do dia; depois, pela vidraça, fazia um sinal a Justin, que, tirando com rapidez seu avental, voava para La Huchette. Rodolphe chegava; era para dizer-lhe que se aborrecia, que seu marido era odioso e sua existência terrível!

– Posso fazer alguma coisa? – exclamou ele um dia, impaciente.

– Ah! Se você quisesse!...

Estava sentada no chão, entre os joelhos dele, os bandós desfeitos, o olhar perdido.

– O quê? – perguntou Rodolphe.

Ela suspirou.

– Vamos viver em outro lugar... Em algum lugar...

– Você é louca, com certeza! – disse ele, rindo. – Isso seria possível?

Ela voltou ao assunto; ele fez-se de desentendido e mudou de conversa.

O que ele não entendia era toda aquela complicação para uma coisa tão simples quanto o amor. Emma tinha um motivo, uma razão, uma espécie de auxiliar em sua afeição.

Aquela ternura, de fato, cada dia crescia mais sob a repulsa de seu marido. Quanto mais ela se entregava a um, mais execrava o outro; jamais Charles lhe parecera tão desagradável, com dedos tão quadrados, o espírito tão pesado, os modos tão comuns quanto depois dos encontros com Rodolphe, quando eles ficavam a sós. Então, embora continuasse fingindo-se de boa esposa e virtuosa, inflamava-se com a lembrança daquela cabeça, cujos cabelos negros formavam cachos que caíam na testa morena, daquela cintura ao mesmo tempo tão robusta e tão elegante, daquele homem, enfim, que possuía tanta experiência na razão, tanto arrebatamento no desejo! Era para ele que lixava suas unhas com um cuidado de cinzelador e que não deixava faltar cold cream para sua pele nem patchuli em seus lenços. Carregava-se de braceletes, de anéis, de colares. Quando ele estava para vir, ela enchia de rosas seus dois grandes vasos de vidro azul e dispunha seus aposentos e a si mesma como uma cortesã que espera um príncipe. Era preciso que a criada lavasse roupa sem parar; e, durante o dia todo, Félicité não tirava o pé da cozinha, onde o pequeno Justin, que freqüentemente lhe fazia companhia, olhava-a trabalhar.

Com cotovelo apoiado sobre a longa tábua onde ela passava roupa, contemplava avidamente todos aquelas coisas de mulher espalhadas em torno dele: os saiotes de basim, os xales, os colarinhos e as calças debruadas, vastas nos quadris e que se estreitavam na parte de baixo.

– Para que serve isso? – perguntava o rapaz, passando a mão sobre a crinolina ou sobre as fivelas.

– Nunca viu nada disso? – respondia, rindo, Félicité. – Como se a sua patroa, a sra. Homais, não usasse as mesmas coisas.

– Ora, a sra. Homais!

E acrescentava com um tom meditativo:

– Será que ela é uma dama como esta senhora?

Mas Félicité perdeu a paciência de vê-lo assim em volta dela. Ela tinha seis anos a mais do que ele, e Théodore, o criado do sr. Guillaumin, começava a fazer-lhe a corte.

– Deixe-me em paz! – ela dizia, mudando de lugar seu pote de goma de amido. – Vá pilar amêndoas. Você está sempre ciscando do lado das mulheres; espere que sua barba cresça para meter-se com essas coisas, seu fedelho.



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